A doutrina cristã sempre valorizou o corpo humano por entender que ele é
bom. Desde os primeiros séculos, os doutores da Igreja tiveram de combater a
doutrina maniqueísta, que considerava a existência de dois deuses: um do bem e
outro do mal, sendo que tudo que era material era entendido como obra do deus
mau. Dessa forma, o corpo, por ser matéria, era desprezado.
Entretanto, a fé cristã sempre viu no corpo uma bela obra de Deus. O
homem é uma unidade de corpo e alma. O corpo é tão importante que, no mistério
da Encarnação do Verbo Divino, o Filho de Deus assumiu a nossa carne. Por isso,
a Igreja entende a grandeza do corpo humano e a necessidade de valorizá-lo e
protegê-lo desde a gestação materna. É através do nosso corpo que nos
relacionamos como os outros, com a natureza e com o cosmos. Ele não é apenas
uma máquina fria sem expressão.
Na pessoa humana o corpo é um reflexo da vida interior, tanto que
expressa o cansaço do espírito, a depressão da alma ou a alegria de viver. Para
o cristão, matéria e espírito são duas dimensões do ser. O homem todo é obra
boa de Deus, é um ser racional que deve valorizar todas as atividades: físicas,
racionais, psicológicas e espirituais.
Também a Bíblia ressalta a grandeza do nosso corpo. São Paulo fala do
cristão como o “templo vivo da Santíssima Trindade”. Jesus disse aos apóstolos
que “se alguém me ama, meu Pai o amará, viremos a ele e faremos nele nossa
morada” (João 14,23). E é por isso que o apóstolo dos gentios é tão severo ao
advertir os coríntios sobre a necessidade de se manter a pureza do corpo. “Não
sabeis que sois o templo de Deus e que o espírito de Deus habita em vós?” (I
Cor 3,16).
Esses ensinamentos fazem com que o cristão saiba usar o seu corpo com
dignidade, sobretudo, na vida sexual, expressão maior do amor conjugal. Por
isso, o sexo não é vivido nem antes nem fora do casamento. Quando Deus une o
casal para sempre – como uma só carne – este se torna um compromisso de vida na
dor e alegria. Fora do casamento, toda relação sexual se torna vazia, porque perde
o sentido unitivo e procriativo. Pela relação amorosa dos seus corpos, homem e
mulher celebram a “liturgia conjugal” e são capazes de dar vida a um novo ser
que, como eles, é imagem de Deus.
Por outro lado, o corpo não pode ter uma primazia sobre o espírito. Na
Antiguidade, se valorizava somente o espírito, desprezando-se o corpo. Hoje,
corremos o risco de ver o contrário acontecer. Há pessoas que se tornaram
escravas do corpo. O consumismo as convenceu de que o mais importante é ser
bonito fisicamente, esbelto, magro. Muitas pessoas são convencidas de que,
se não estiverem de acordo com esses padrões, não serão felizes. Entretanto,
Deus seria injusto se fizesse com que a felicidade dependesse da cor da pele,
do biótipo do corpo, da ondulação do cabelo. O corpo não é um fim em si
mesmo, mas um meio para nos expressarmos. Michel Quoist dizia ao jovem que, para
ser belo, é melhor parar “cinco minutos diante do espelho, dez diante de si
mesmo e quinze diante de Deus”. Se considerarmos esse princípio, estaremos
dando a justa medida às coisas e, por consequência, trilhando o caminho da
verdadeira felicidade.
felipeaquino@cancaonova.com
Prof. Felipe Aquino

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